"O conflito entre ética e sexualidade, em nossos dias, não é uma
mera colisão entre instintividade e moral, mas uma luta para justificar a
presença de um instinto em nossas vidas e para reconhecer neste instinto um
poder que procura sua expressão, e com o qual, manifestamente, não se pode brincar
e que, por isso, também não quer se submeter às nossas bem-intencionadas leis.
A sexualidade não é mera instintividade; é um poder indiscutivelmente criador
que é não somente a causa fundamental de nossa existência individual, como um
fator em nossa vida psíquica, a ser levado com muita seriedade. Hoje
conhecemos, suficientemente, as graves conseqüências que as perturbações da
sexualidade podem trazer. Poderíamos chamar a sexualidade de porta-voz dos
instintos, e é por isto que o ponto de vista espiritual vê nela a sua principal
antagonista, não, certamente, porque a tolerância sexual seja em si mesma mais
imoral do que o excesso no comer e no beber, do que a avareza, a tirania e o
esbanjamento, mas porque o espírito pressente na sexualidade uma contraparte de
igual peso e mesmo afim a ele. De fato, do mesmo modo que o espírito gostaria de
submeter a sexualidade, como todos os outros instintos, a seus próprios
esquemas, assim também a sexualidade alimenta uma antiga pretensão sobre o
espírito que ela, outrora – na procriação, na gravidez, no nascimento e na
infância – trazia consigo e cuja paixão o espírito jamais poderá dispensar em
suas criações. Que seria, afinal, o espírito, se existisse um instinto de igual
peso a lhe contrapor? Seria apenas uma forma vazia. Uma consideração racional dos
outros instintos se tornou uma necessidade axiomática para nós; mas com a sexualidade
é diferente. Para nós, a sexualidade ainda é problemática. Neste ponto ainda não
atingimos aquele grau de consciência que nos capacitaria a fazer plena justiça ao
instinto sem danos morais sensíveis..."
- C.G. Jung, A Energia Psíquica (OC 8/1), § 107.
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segunda-feira, 8 de abril de 2013
domingo, 31 de março de 2013
Adaptação e Individuação
“A progressão enquanto processo contínuo de adaptação às condições do mundo ambiente assenta na necessidade vital de adaptação. A necessidade compele o indivíduo a se orientar inteiramente para as condições do mundo ambiente e a reprimir aquelas tendências e virtualidades que servem ao processo de individuação.
A regressão, ao invés, enquanto adaptação às condições do próprio mundo interior, assenta na necessidade vital de satisfazer as exigências da individuação. O homem não é uma máquina, no sentido de que poderia manter constantemente a mesma produção de trabalho; pelo contrário, só poderá corresponder plenamente às exigências da necessidade exterior de maneira ideal, se se adaptar também a seu próprio mundo interior, ou seja: se entrar em harmonia consigo mesmo. E, inversamente, só poderá adaptar-se ao seu próprio mundo interior e estar em harmonia consigo mesmo, se se adaptar também às condições do mundo exterior. Uma ou outra função só pode ser negligenciada por algum tempo, como no-lo mostra a experiência, ou seja: quando só há uma adaptação unilateral, no exterior, enquanto o interior é negligenciado, tem lugar uma elevação gradual do valor das condições externas, como se pode ver na irrupção de elementos pessoais, na esfera da adaptação exterior. Assim fui testemunha, certa feita, de um caso dramático: um fabricante que subira na vida pelo próprio esforço e trabalho, tornando-se próspero cidadão, começou a se recordar de certa fase de sua mocidade, quanto tivera muitas alegrias com a arte. Sentiu necessidade de retornar a essas tendências e começou a desenhar modelos artísticos para a sua fábrica. O resultado foi que ninguém quis mais adquirir esses produtos artísticos, e nosso homem foi à falência em poucos anos. Seu erro consistiu em querer transferir para o exterior o que pertencia ao interior, por entender erroneamente as exigências da individuação. Um fracasso assim tão patente de uma função de adaptação parcialmente suficiente se explica por esta compreensão errônea típica das exigências externas.”
- C.G. Jung, A Energia Psíquica (OC 8/1), § 74-75
A regressão, ao invés, enquanto adaptação às condições do próprio mundo interior, assenta na necessidade vital de satisfazer as exigências da individuação. O homem não é uma máquina, no sentido de que poderia manter constantemente a mesma produção de trabalho; pelo contrário, só poderá corresponder plenamente às exigências da necessidade exterior de maneira ideal, se se adaptar também a seu próprio mundo interior, ou seja: se entrar em harmonia consigo mesmo. E, inversamente, só poderá adaptar-se ao seu próprio mundo interior e estar em harmonia consigo mesmo, se se adaptar também às condições do mundo exterior. Uma ou outra função só pode ser negligenciada por algum tempo, como no-lo mostra a experiência, ou seja: quando só há uma adaptação unilateral, no exterior, enquanto o interior é negligenciado, tem lugar uma elevação gradual do valor das condições externas, como se pode ver na irrupção de elementos pessoais, na esfera da adaptação exterior. Assim fui testemunha, certa feita, de um caso dramático: um fabricante que subira na vida pelo próprio esforço e trabalho, tornando-se próspero cidadão, começou a se recordar de certa fase de sua mocidade, quanto tivera muitas alegrias com a arte. Sentiu necessidade de retornar a essas tendências e começou a desenhar modelos artísticos para a sua fábrica. O resultado foi que ninguém quis mais adquirir esses produtos artísticos, e nosso homem foi à falência em poucos anos. Seu erro consistiu em querer transferir para o exterior o que pertencia ao interior, por entender erroneamente as exigências da individuação. Um fracasso assim tão patente de uma função de adaptação parcialmente suficiente se explica por esta compreensão errônea típica das exigências externas.”
- C.G. Jung, A Energia Psíquica (OC 8/1), § 74-75
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